ARTIGOS

25/02/2005

A fazenda como uma empresa



A visão de que uma fazenda é um negócio como outro qualquer e, portanto, precisa ser tratado como tal, é essencial à sobrevivência da atividade. A imagem de um lugar tranqüilo e até mesmo bucólico, habitado pelo tão tradicional “caipira” supostamente atrasado e mal informado, não é mais uma realidade comum. Esta nova situação é ainda mais evidente quando tratamos de pecuária de corte, atividade que experimenta grandes saltos produtivos e constitui-se hoje num importante negócio em âmbito internacional.

Até alguns anos atrás, a atividade permitia altas margens de lucro já não tão fáceis de obter nos dias de hoje. Não bastassem as “espremidas” margens operacionais, enfrenta ainda um grande leque de pressões, entre elas, mais evidente, a pressão social.

Para a condução do negócio Pecuária de Corte, antes de tudo, é fundamental a exploração com alta eficiência. Neste sentido, é imprescindível estabelecer um programa de gerenciamento da atividade, com objetivos claros e desenvolvimento do método de administração adequado. A criação da base deste programa depende do pleno conhecimento da estrutura física disponível para uso. Condições como tipo e fertilidade de solo, clima da região, recursos hídricos e infraestrutura também definem a capacidade de produção da propriedade e, ainda dentro desta premissa, sua localização, o tipo de topografia, etc., também vão definir sua “aptidão produtiva”.

Temos, em gera,l as alternativas de cria, recria e engorda; cria e recria; recria e engorda; exclusivamente engorda; apenas a comercialização de gado; e em evidencia nos dois últimos anos, a exploração de “rebanhos de elite” cujo principal objetivo é a venda de material genético de boa qualidade a criadores de gado comercial.

No campo das possibilidades, a primeira restrição produtiva é imposta pela inter-relação solo-clima. Estes fatores são determinantes, pois, definem a capacidade de suporte da propriedade e esta por sua vez, define o nível de exploração que se pode ter. Daí, a opção pela implantação de uma espécie forrageira adaptada às condições disponíveis, é o primeiro passo dentro de um programa de produção. A partir deste ponto, poderão ser definidos os objetivos da exploração e um programa ou planejamento de ações a serem adotadas.

Quando tratamos de atividades agropecuárias, freqüentemente nos deparamos com processos que exigem agilidade nas decisões (para atividades que dependem das chuvas, por exemplo). Quanto mais ágeis as decisões menores os riscos de ineficiência. Isso posto, temos as questões de ordem financeira que exigem estudos de viabilidade econômica do negócio e principalmente, um programa de fluxo de movimento de caixa. São poucas as propriedades que têm este conceito atualmente. Normalmente as preocupações são de ordem emergencial que, no fim, atrapalham a estratégia da exploração como um todo.

Nesta etapa, definições de ordem técnica são fundamentais: qual será a dimensão do negócio? É obvio que, como dissemos anteriormente, a carga animal e o tipo de exploração são determinados pelos fatores físicos, edáficos e climáticos, além das características sócio econômicas da região. Porém, quão intensivo será o processo produtivo depende da disponibilidade de capital a ser investido no negócio e das estratégicas técnicas a serem adotadas e que envolvem desde a determinação de uso de alimentos conservados ou adquiridos, confinamento ou uso exclusivo de pastagens (podendo ser cultivadas ou nativas); utilização de consórcios de agricultura e pecuária; etc.

O planejamento também implica uma manutenção sistemática de máquinas e instalações (inclusive pastagens). A manutenção preventiva é sempre melhor que a corretiva.

Para cada situação uma estratégia.

Quanto à produção propriamente dita, a reunião de todos os passos anteriores determinará a natureza e o nível da exploração. Quanto mais intensiva a exploração maior o aporte de recursos (financeiros ou não) necessários.

Quaisquer tipos de exploração, num modelo profissional e empresarial, devem ser submetidos a uma análise criteriosa de custos, de retorno de capital do investimento, com diferentes critérios para o capital fundiário, capital de giro necessário e finalmente, do capital investido na produção.

Estas medidas de ordem financeira são, na sua maioria, comuns a qualquer tipo de empresa, porém, para que tenhamos pleno conhecimento do andamento do negócio, do ponto de vista técnico, visando avaliar os resultados das decisões tomadas e ainda, orientar as futuras interferências no modelo produtivo, são necessárias também mensurações de ordem técnica.


Podemos interferir no processo produtivo através de práticas como adubação de pastagens, suplementação dos animais nas mais diversas categorias, diferimento de pastagens, pastejo rotacionado ou não, diversificação de estratégias reprodutivas, etc.

Tais interferências normalmente têm a finalidade de otimizar a produção e muitas vezes, intensificar a exploração dos recursos naturais da propriedade. O fato é que a mensuração dos índices produtivos de um rebanho não é algo tão simples quanto a mensuração dos resultados econômico-financeiros. Depende de técnicas de obtenção de valores e índices que demandam capacitação técnica.

Isso normalmente é feito através da adoção de índices ou unidades de produção como kg de Matéria Seca /ha (MS/ha), Unidade Animal/ha (UA/ha), arroba/ha (@/ha), kg de bezerro desmamado X vaca empastada, % de nascimentos X rebanho total, kg de carne produzida ao ano X estoque de animais da propriedade, entre muitas outras. Em geral, tais avaliações simplesmente não existem ou referem-se a dados obtidos empiricamente, resultantes da observação dos envolvidos na produção com um “acho que tá bão”, que pode não retratar a realidade.

Em fazendas onde programas de mensuração são aplicados, vemos claramente demonstrado que um animal bonito não significa um animal ganhando peso e a recíproca é verdadeira, bem como um pasto viçoso pode não significar alta oferta de forragem.

Medidas desta ordem podem antever, ainda, a capacidade de lotação da propriedade mês a mês, através do conhecimento de sua história ou até mesmo de cada módulo ou pasto, diminuindo o efeito surpresa que pode exigir a venda rápida de parte do plantel ou resultar no comprometimento ou perda de recurso forrageiro por sobre-pastoreio.

Em nosso entender a conciliação das mensurações de ordem técnica com as de ordem econômica são o ponto chave para o sucesso, obviamente respeitando-se os recursos naturais de cada propriedade ou região, otimizando-se o uso dos recursos regionais e principalmente, medindo o efeito da aplicação de técnicas ou novas tecnologias no processo produtivo.
O intercambio de idéias e experiências entre produtores ou instituições envolvidas com a produção, trás grandes benefícios à atividade. Uma prática ou técnica útil deve ser estudada, melhorada e adaptada para cada propriedade.

Certamente os melhores resultados se obtém explorando de modo inteligente as oportunidades naturais de cada região, trabalhando a favor da natureza e com respeito pelas questões que envolvem o meio ambiente, mais do que, simplesmente, resolvendo problemas. A essência desta idéia já foi descrita pelo grande pecuarista americano Tom Lasater, nos anos 60: “Para enfrentar as circunstancia atuais o empresário rural, como qualquer outro executivo, deve preocupar-se pelo melhoramento e pela inovação conscientes mais do que pela resolução de problemas ordinários”.
Vemos assim que apesar de constituir-se em tema já bastante discutido, estas questões ainda são atuais no setor. Esperamos que o trabalho bem conduzido e seus reflexos positivos possam realmente servir de exemplo para aqueles mais resistentes.


Rogério Costa
Êxito Rural Consultoria em Pecuária