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27/01/2009

Especial Globalização da Pecuária - Parte I



Oportunidade para o Brasil


O aumento da demanda mundial por carne bovina está ligado à renda e ao crescimento da população mundial. Por conta dessa situação, em dez anos, o comércio mundial de carne vermelha crescerá mais de 12 milhões de toneladas até 2017. Uma média anual de 1 milhão de toneladas, correspondente a US$ 3 bilhões, puxada principalmente pela demanda dos países em desenvolvimento.
O Brasil é um dos países com liderança no conhecimento técnico e científico na produção de carne. Com sistemas de produção peculiares e diferentes modelos de manejo, o País será um dos responsáveis pela expansão prevista no mercado da carne bovina.
Depois de um longo ciclo de baixa, o mercado interno mostra uma saudável recuperação dos preços da arroba bovina. Há uma redução no abate de matrizes para a recomposição do rebanho nacional. O preço da carne exportada sofre elevação no mercado internacional porque a oferta está ajustada e os custos de produção aumentaram.
Além de contar com 90 milhões de hectares para ocupação com gado e mais de 15% das reservas de água natural do mundo, com clima perfeito, o Brasil possui excelente capacidade de produção, em condições de alta competitividade, quando avaliado em termos de custo de produção.
Na verdade, o potencial da cadeia produtiva da pecuária nacional ganhará maior magnitude à medida que tenha capacitação para desenvolver estratégias importantes como:
• Parcerias entre criadores e frigoríficos com foco na produtividade e qualidade;
• Fortalecimento do marketing internacional;
• Incorporação dos consumidores de menores classes de renda;
• Valorização da carne natural de animais em pastagens;
• Estimular a produção de novilhos precoces.
Obviamente, para o Brasil ocupar maior espaço no suprimento mundial de carne bovina, existem obstáculos no caminho. Um dos seus principais alvos é a sanidade animal. As nações que começam a ter acesso a essa proteína animal de qualidade podem até colocar em segundo plano as questões de rastreabilidade, meio ambiente e mão-de-obra. Porém, se o tema for doença, a temor é geral.
Nesse sentido, os esforços na área sanitária devem ser canalizados para:
• Um trabalho com imagem e credibilidade positivas;
• Gestão com base no código da Organização Internacional de Epizootias (OIE);
• Controlar as áreas de fronteiras;
• Apresentar informações consistentes e oportunas.
Os critérios de qualidade determinam em grande parte os níveis de comércio de carnes, tanto no âmbito nacional como no comércio exterior. Na busca por resguardar a saúde dos consumidores, assim como a sanidade e bem estar animal, as normas, no contexto:
• Nacional é emanada pelos Ministérios da Saúde e da Agricultura;
• Internacional é definida pela Organização Mundial do Comércio (OMC) dentro do Acordo de Medidas da América do Sul.
Com relação à rastreabilidade, a montagem um plano de implantação envolve um alto grau de profissionalismo. Esta prática ganha dimensão global e os países importadores, seja pela sua segurança alimentar, ou como barreira técnica, estarão cada vez mais dispostos a exigi-la. A adesão dos exportadores é de caráter voluntário. O conceito propõe transparência, honestidade e permanente diálogo entre as partes envolvidas na produção, visando à satisfação do consumidor cada vez mais exigente e ao estímulo para aqueles que participam do processo.
A rastreabilidade de um animal consiste no acompanhamento e registro dos eventos, ocorrências, manejos, transferências e movimentações ocorridas durante sua vida, desde o momento de seu nascimento ou identificação até seu abate. Ao resgatar o histórico do produto e de seu processo de produção, do campo ao prato, atua como mecanismo fundamental na segurança alimentar da população.
O mercado mundial de carnes passa por transformações significativas. A partir de 2004, o Brasil ultrapassou a Austrália e tornou-se o maior exportador de carne bovina do mundo. Com crescentes ganhos de produtividade, a cadeia produtiva partiu para a conquista de novos mercados, com a geração de superávits na balança comercial brasileira.
O fato da taxa de desfrute da pecuária brasileira ser baixa, de 22%, quando comparada com 37% nos Estados Unidos, 34% na União Européia, 32% na Austrália, 29% no Canadá, 28% na Argentina, significa uma oportunidade para melhorar os processos produtivos.
Assim, o aumento na produção de carne bovina envolve investimentos na área de reprodução animal. A produtividade ideal é um intervalo de um ano entre os partos das matrizes, com nascimento de um bezerro a cada 12 meses. Mas, a taxa de eficiência está em 50%. Isso significa um parto a cada 18 meses. O resultado pode ser melhorado com a inseminação artificial e o cruzamento industrial. Atualmente, 94% das matrizes são inseminadas por meio da monta natural, e apenas 6% pelo método artificial.
Brasil, Austrália, EUA e Canadá tendem a manter alta participação nas exportações mundiais de carne bovina. Em relação às importações, os EUA, da Rússia, do Japão e da União Européia aparecem como os principais.
Com o avanço em empresas na Argentina, no Paraguai, Uruguai, Chile, nos Estados Unidos, na Austrália e Itália sobre outros países, a indústria brasileira de carne bovina abocanhou mais da metade das exportações mundiais. O avanço em volume ocorre com a conquista de novos mercados, como Cuba, Malásia e China.
O desafio está em superar a fase da carne commodity. O valor agregado à carne deve ser por meio de cortes especiais, como filé mignon e contrafilé, produtos que poderão, inclusive, ser enviados de avião para os países importadores. É uma referência de qualidade para o produto nacional participar da cota Hilton.
Por sua vez, existem também chances concretas para o Brasil ocupar espaços nos mercados dos:
• Países europeus, que preferem a carne bovina dos animais criados a pasto, sem uso de anabolizantes. A carne dos Estados Unidos não entra no mercado europeu devido à utilização de hormônios nos animais;
• EUA, se aumentar a criação de bovinos alimentados com grãos. Atualmente, os norte-americanos, país com média de consumo de 35 quilos de carne per capita por ano – uma das mais altas do mundo –, só importa do Brasil carne enlatada ou maturada, provenientes de áreas livre da febre aftosa.
Fatores conjunturais ajudaram o Brasil a conquistar a liderança no mercado mundial, tais como:
• O aparecimento da doença da vaca louca na década passada;
• A redução do rebanho norte-americano;
• Alto custo de produção de carne bovina na Europa;
• Seca na Austrália;
• Registro de focos de febre aftosa na Argentina em 2000.
A expressiva inserção do Brasil no mercado internacional da carne bovina provoca mudanças estruturais na indústria frigorífica, com maior profissionalização e modernização da gestão, em termos logísticos, tecnológicos e administrativos.
Cota Hilton
É uma parcela de exportação de carne bovina sem osso, de alta qualidade e valor, que a União Européia outorga anualmente a países produtores e exportadores de carnes.
Tecnicamente, a cota é coberta por cortes de carne de animais bovinos com:
• Idade entre 22 e 24 meses;
• Dois dentes incisivos permanentes;
• Alimentação exclusivamente a pasto;
• Peso de abate inferior a 460 quilogramas;
• Cortes autorizados a levar a marca SC (Special Cuts).
Os sete cortes de carne bovina que integram a cota são: bife angosto, cuadril, lomo, nalga, bola de lomo, quadrada e peceto.
A origem da Cota Hilton provem de um acordo comercial celebrado no âmbito das Negociações Multilaterais Comerciais do Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio), na chamada Rodada Tóquio, no ano de 1979, realizada em um hotel da cadeia Hilton (daí a origem de seu nome). Naquela Rodada, a União Européia acordou em atribuir uma cota para exportações de cortes bovinos de alta qualidade ao seu mercado e a outras nações.
Brasil: vantagens competitivas na pecuária de corte
• Escala e posicionamento competitivo.
Maior exportador de carne bovina (mesmo exportando para menos de 52% do mercado mundial de carne in natura);
Maior rebanho comercial de gado do mundo;
Segundo maior produtor mundial de carne bovina;
Terceiro maior consumidor mundial de carne bovina em volume total.
• Potencial de produção.
Produção brasileira de carne bovina cresceu praticamente 25% nos últimos cinco anos, o quíntuplo do mercado mundial.
A exportação, produção e o consumo interno da carne bovina brasileira cresceram;
Melhoria geral na estrutura industrial;
Aprimoramento genético e sanitário do rebanho;
Formalização do setor e abertura de novos mercados.
• Baixo custo de produção.

Condições ambientais favoráveis;
Disponibilidade de terras a preços baixos;
Preço do gado competitivo;
Desenvolvimento tecnológico superior aos seus concorrentes no continente;
Economias de escala, geradas pelo alto volume de produção;
Qualificação de mão-de-obra contribui para a competitividade global;
Melhor aproveitamento do boi, com economias de escala.
• Criação extensiva e qualidade do produto.
Predominantemente extensiva;
Alimentação de pastagem e ração de origem vegetal;
Baixo risco de um surto de BSE;
Diversidade de raças para atender demandas específicas nos mercados mundiais;
Não contém os hormônios de crescimento utilizados em alguns países.
Fatores conjunturais positivos para o Brasil
• O aparecimento da doença da vaca louca na década passada;
• A redução do rebanho norte-americano;
• Alto custo de produção de carne bovina na Europa;
• Seca na Austrália;
• Registro de focos de febre aftosa na Argentina em 2000.