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27/01/2009

Especial Globalização da Pecuária - Parte II



Conjuntura – Ventos favoráveis


Neste ano, a pecuária de corte nacional manteve o processo de recuperação de renda. Houve uma inversão mais definida da situação que vinha desde 2003. Nesse período, os custos totais de produção da atividade aumentaram 43,88%, enquanto o preço da arroba subiu apenas 4,49%. A perda de renda e a competição com culturas como soja e cana-de-açúcar desestimularam a atividade.
Os criadores ficaram mais de quatro anos na expectativa do movimento de alta do boi gordo registrado entre agosto e setembro de 2007. Uma longa fase de perdas financeiras e de abate de fêmeas.
De fevereiro de 2003 a setembro de 2007, o Custo Operacional Total da atividade acumulou aumento de 43,82%, enquanto o preço da arroba do boi gordo aumentou, em média, apenas 4,5% em valores nominais, segundo o Cepea/ Esalq/ USP. Essa grande perda de rentabilidade provocou prejuízo patrimonial foi alta e muitos projetos deixaram de ser concretizados.
A situação ganhou contornos dramáticos. Em março de 2005, os produtores entraram com processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A alegação era de que um grupo de frigoríficos adotou uma tabela única de preços para aquisição de boi, o que caracterizaria formação de cartel. Responsáveis por mais da metade da produção de carnes no País, oito frigoríficos foram investigados. Em 21 de agosto de 2006, a Secretaria de Direito Econômico (SDE) concluiu que as indústrias tabelaram os preços pagos aos pecuaristas. O Cade aplicou multa e contribuição pecuniária.
O período entre 2000 e 2005 foi de extremo crescimento no abate de vacas no País. Sem preços remuneradores, para simplesmente manter-se da atividade, a saída do pecuarista era a venda do rebanho. Entre 2002 e 2004, o abate de vacas cresceu quase 90%. Isso reduziu de forma substantiva a capacidade de reposição do rebanho.
Em 2005, o mercado dava sinais de escassez de bezerro, na medida em que seus preços passaram a subir. Isso significava o fim de um ciclo pecuário e o início do movimento de reposição dos rebanhos. Desde 2006, passou-se a observar uma retração no abate de vacas. A isso também se somou o efeito da redução geral dos abates, por conta da oferta mais enxuta. O cenário ficou positivo para a pecuária
Na verdade, após atingir patamares bastante elevados entre 2004 e 2006, a partir de 2007, a participação dos abates de fêmeas em relação aos abates totais começou a ceder. Como alguns plantéis foram literalmente dizimados entre 2002 e 2006, o estoque de vacas diminuiu significativamente. O ano de 2006 é considerado o auge da crise da pecuária, com o menor preço histórico da arroba do boi.
De março de 2007 a fevereiro de 2008, o preço bezerro, de acordo com o Cepea/Esalq/USP, passou de R$ 397,00 para R$ 523,00, em Mato Grosso, estado que baliza o mercado. O aumento, superior a 30%, confirma a alta matança de fêmeas ocorrida nos últimos dez anos. A alta no preço do bezerro interfere diretamente e dá firmeza às cotações do boi gordo.
A reposição é difícil e somente ocorre a médio prazo. A vaca retida em 2007 demora um ano para gerar um bezerro. Há ainda mais três anos para o gado ficar pronto. É um ciclo de acima de três anos, e, de boi pronto, quatro anos. A concentração no abates dos bezerros gerados em 2008 será entre 2010 e 2011. Essa conjuntura fortalece os preços da carne.
Os frigoríficos são forçados a tomar decisões no sentido de um agudo ajuste, com ociosidade na capacidade de produção. A queda de escala representa perda na eficiência econômica. Já não será surpresa fechar o ano com queda na produção de carne bovina neste ano.
Alguns frigoríficos, que operam com vacas para abastecer o mercado interno encontram enorme dificuldade para manter as programações de abate. Alguns até pararam de abater.
Com a significativa expansão dos frigoríficos exportadores, mediante aquisições, fusões e ampliações de plantas, a tendência é crescer a participação dos abates formais.
Do lado externo, a Austrália passou pela maior estiagem dos últimos 60 anos, a Argentina teve casos de aftosa e os Estados Unidos enfrentaram o mal da vaca louca e ainda não conseguiram recuperar a força que tinham no comércio internacional.
Se a crise internacional não levar a uma queda na renda e retração do consumo, com a possibilidade da União Européia voltar ao mercado comprador, a carne continuará a se valorizar ante a sua oferta enxuta.
O cenário é favorável. O País prossegue líder nas exportações mundiais de carne bovina. Seus principais concorrentes enfrentam problemas para aumentar a oferta, como Argentina, Austrália, Estados Unidos e União Européia.
Essa combinação de variáveis na ponta da cadeia coloca algumas prioridades para os criadores. O mercado está muito mais exigente. É o momento de aproveitar o ciclo de preços altos do boi gordo e receber bonificações por qualidade, com a oferta de animais aos frigoríficos:
• Jovens: no máximo 30/36 meses de idade;
• Pesados: entre 16 e 22 arrobas;
• Com bom rendimento de carcaça.
• Cobertura de gordura (3 mm ou mais).
Para conseguir animais com essa configuração, um dos pontos chaves está no uso da boa genética. Com uma escolha criteriosa dos reprodutores (machos e fêmeas), o gado chegará às condições exigidas pelos frigoríficos no momento adequado. A probabilidade de lucro é bem maior pois os animais ficarão na fazenda menos tempo, consumirão menor quantidade de alimentos e não pressionarão os custos.
Confinamento: sondagens indicam recuos
A intenção de confinamento no Brasil, para 2008, segundo Pesquisa da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon) feita com seus associados, revela um aumento de somente 1,1% (547.665 animais), em relação ao mesmo período do ano passado. A entidade representa cerca de um quinto dos animais confinado no País.
O levantamento foi realizado na segunda quinzena de setembro, as entrevistas envolveram 47 associados da Assocon em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul e no Paraná.
Ao comparar o resultado com a pesquisa anterior, realizada no mês de agosto, constata-se uma redução de 5,3%. Se a comparação for feita com a primeira pesquisa de 2008, realizada em março, a queda é ainda maior, de 17,3%.
Dentre as razões citadas pelos pecuaristas para esses recuos destacam-se:
• Os altos custos dos insumos;
• A dificuldade para aquisição de bois magros, juntamente;
• Sinalização de queda no valor da arroba para os principais meses de venda (setembro e outubro).
Diante dos preços pouco atrativos apontados pelo mercado para o início do segundo semestre, uma parte dos abates migrou de agosto, setembro e outubro para novembro e dezembro.
Em escala global, os confinamentos no Brasil são muito competitivos nos dois maiores itens de custo, alimentação e o preço do boi magro. O sistema apareceu na década de oitenta. O objetivo era tirar vantagem das fortes diferenças de preço entre a safra e a entressafra. Agora, a expansão é ditada pela maior na oferta de grãos e seus subprodutos nas áreas contíguas às criações
Com uma participação inferior a 5% do rebanho abatido, o confinamento tem espaço para crescer. É importante manter o fluxo da oferta de gado com qualidade e habilitado à exportação nos meses da entressafra. Mas, muitas vezes, a dependência de grandes quantidades de volumoso atrapalha a implantação de macro projetos. Outro ponto é a disponibilidade de capital para a aquisição dos animais, do concentrado e do volumoso.
Exportação cai em 2008
Desde 2001, quando foram embarcadas 901 mil toneladas, as exportações brasileiras crescem e registram seguidos recordes. Com passos largos, o país se consolidou nos últimos anos como o maior exportador mundial
Com avanço considerável no controle da febre aftosa, o rebanho brasileiro teve aumento de produtividade. Com o maior rebanho bovino comercial do mundo, graças à sua eficiência na produção, o setor pôde satisfazer o aumento da demanda do mercado externo.
O cenário favorável externo, aliado ao potencial de produção, levou o Brasil a assumir a liderança mundial nas exportações de carne bovina, com venda para mais de 170 países em todo o mundo. É o maior fornecedor para mercados como a União Européia e a Rússia.
Neste ano, as exportações de carne bovina do Brasil deverão fechar com uma queda de cerca de 20% em volume, na comparação com 2007, para aproximadamente 2 milhões de toneladas (equivalente carcaça). As restrições impostas pela União Européia e a alta de preços freiam o consumo mundial. Em contrapartida, as divisas obtidas com as exportações devem crescer 10%.
A redução nas vendas para a União Européia, que limitou no começo do ano o número de fazendas fornecedoras de gado para os frigoríficos exportadores, afetou o desempenho das exportações nacionais. Houve uma redução nas exportações de carne in natura para os Países Baixos, a Itália e o Reino Unido, os principais clientes do Brasil integrantes da UE.
No acumulado do primeiro semestre, as exportações brasileiras foram, em:
• Volume, 968,5 mil toneladas, queda de 19% em relação ao primeiro semestre de 2007;
• Receita, US$ 2,06 bilhões, alta de 10,4% na mesma comparação.
Nos primeiros seis meses do ano, as exportações de carne in natura para os principais clientes do Brasil integrantes da UE – Países Baixos, Itália e Reino Unido – caíram, respectivamente, 43 %, 62% e 39% . Isso representa um efeito a curto prazo importante na redução do volume total da exportação brasileira.
Manutenção da liderança
Apesar da queda expressiva em volume, a Abiec avalia que os preços limitam o consumo no mercado mundial. Mesmo assim, o País deve manter a sua posição de liderança nas exportações, à frente da Austrália.
Diante do aumento significativo de preço que a carne teve nos últimos meses, estimado pela Abiec em 10%, é pouco provável algum produtor concorrente ter crescido em volume e ganho de participação sobre o Brasil.
Não há previsão de quando o Brasil voltará a exportar os volumes normais para a UE. A maior adesão de criadores de gado ao sistema de rastreabilidade exigido pelos europeus tem sido uma boa noticia.
Cerca da metade do mercado mundial de carne bovina, que movimenta anualmente 7 milhões de toneladas entre exportações e importações, está concentrada nas empresas brasileiras. Iniciado em 2005, o movimento de internacionalização do setor ganhou força dois anos depois, quando a JBS fez nove aquisições, entre as quais as americanas Swift, National Beef e Smithfield Beef e a australiana Tasman. O Marfrig realizou nove aquisições, enquanto o Bertin fez duas compras.
A alta nos preços é internacional, com custos maiores de produção em função dos grãos mais caros, matéria-prima importante em países com criação intensiva. Com produção extensiva (pasto), apesar de sofrer menos esse efeito, o Brasil atravessa coincidentemente um ciclo de baixa na oferta de animais, após um logo período de abate de matrizes e preços baixos.
Potencial de crescimento
As vantagens comparativas do Brasil sobre os seus principais concorrentes no comércio mundial permitiram um substancial crescimento das suas exportações sobre a produção. Entre os principais países importadores de carne bovina brasileira estão Rússia, Egito, Estados Unidos, Reino Unido, Hong Kong, Itália e Países Baixos.
A diversificação nos destinos foi impulsionada, em grande parte, pela crise da doença da vaca louca na União Européia e nos Estados Unidos. Ao ampliar a pauta de exportações no agronegócio, o Brasil garante a importância da cadeia produtiva da pecuária de corte.
No ranking dos países importadores de carne in natura, além da Rússia, que está em primeiro lugar, aparece em segundo lugar a Venezuela, com crescimento significativo. Com relação à compra de carne industrializada, apesar da suspensão temporária das importações do produto brasileiro, os Estados Unidos continuam como líderes em receita cambial.
A Abiec assinou convênio com a Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimento – Apex Brasil. O valor do convênio é de R$ 7 milhões e prevê a participação em feiras, realização de workshops, convite a jornalistas estrangeiros para conhecerem a cadeia produtiva da carne no Brasil e visita de compradores. Na programação constava a participação nas Feiras de Moscou e Sial Paris, ocorridas nos últimos meses de setembro e outubro, respectivamente.