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27/01/2009

Especial Globalização da Pecuária - Parte III



Mercado Mundial – Ciclo de baixa na produção


Conforme as estatísticas do USDA, o rebanho bovino mundial fechou o exercício de 2007 com ao redor de 996 milhões de cabeças. Em relação a 2006, a taxa de crescimento ficou nos patamares de anos recentes, com menos de 1%. Em 2008, o tamanho do plantel deverá sofrer um tênue recolhimento.
Em termos de paises, o tamanho do rebanho não avança nos mercados tradicionais como EUA, UE, Argentina e Austrália. Os maiores crescimentos são registrados na Índia, no Brasil e na China.
O comportamento da produção deve acompanhar o mesmo ritmo apresentado pelo tamanho do rebanho. De 2004 a 2007, houve um crescimento de 6%, mas neste ano deverá haver um recuo no volume. Os pontos que chamam atenção são:
• A fraca recuperação dos EUA, após o registro do mal da vaca louca (BSE), em 2004;
• O consumo interno aquecido e exportações em alta no Brasil;
• O crescimento econômico e maior demanda pela China.
Os EUA, o Brasil, a União Européia e a China são os maiores produtores mundiais de carne bovina. Os EUA são também grandes consumidores e os maiores importadores mundiais.
Nas transações internacionais, o impulso vinha da demanda aquecida de países em desenvolvimento e da recuperação do consumo, em especial na Coréia do Sul e Japão. Os mercados asiáticos ficaram mais abertos aos EUA, ao Canadá e à Austrália. Agora, como a crise financeira internacional impacta de forma negativa a economia mundial, a demanda deverá evoluir mais moderadamente.
As maiores importações de carne bovina, principalmente de produtos de alta qualidade oriundos de animais alimentados com grãos, por países desenvolvidos como Japão e Coréia, serão direcionadas pela falta de capacidade para aumentar a produção doméstica.
Em contraposição, do lado da oferta, há problemas de seca, alta de custos com milho para criação intensiva e de menor oferta. Com a Austrália, os Estados Unidos e a Argentina perto do limite da capacidade produtiva, o balanço do mercado mundial continuará bem ajustado.
O Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, sem novos focos de febre aftosa, conta com condições favoráveis para crescer nos mercados emergentes e um pouco no europeu. Neste ano, além da queda no volume de carne bovina exportada, pode ocorrer uma pequena variação negativa na produção.
A Argentina enfrenta uma crise com pecuaristas e há restrições internas às exportações. O Uruguai e o Paraguai, com pouca disponibilidade de área, estão próximos do limite da produção.
A possibilidade da Índia e da África se tornarem competidores do Brasil no mercado mundial de carne bovina é questão de médio e longo prazos. As questões religiosas da Índia tornam difíceis sua possibilidade de alcançar o Brasil. Já a África, mesmo com largas extensões de terra e condições climáticas para a expansão da produção pecuária, depois de anos de guerra civil, começa só agora a recuperar seu rebanho e a retomar a produção de carne.
Com crescimento na produção de carne bovina ao longo dos últimos dez anos, a China caminha para se tornar o terceiro maior produtor de carne bovina do mundo, atrás dos EUA e do Brasil. A produção é praticamente voltada para o consumo interno. Em 2006, a produção foi de 7,5 milhões de toneladas de carne bovina. Em 2008, as expectativas são de uma produção de 8 milhões de toneladas.
Uruguai – Busca da qualidade
Com território pequeno, a prioridade será a sanidade animal e gerar carne de boa qualidade, em vez de ter uma produção em larga escala. Com uma produção em torno de 600 mil toneladas de carne, mais de 80% são destinadas à exportação. O restante vai para o consumo interno, de 50 quilos per capita por ano. Como fornecedor complementar, o país pode limitar a quantidade produzida e aumentar a qualidade do produto.
A proibição do uso de hormônios de crescimento e restrições à aplicação de antibióticos, além do uso de pastagens naturais, são fatores que contribuem para a boa imagem da carne. Com sistema eletrônico, denominado de “caixa preta”, obrigatório desde 2006 para identificar e registrar os animais, o Uruguai deverá estar com rastreabilidade completa até o ano de 2010.
Argentina – Exportações limitadas
Depois de bater recorde de vendas no exterior em 2005, em março de 2006, o governo anunciava a suspensão do embarque de carne por 180 dias. Considerado um dos principais itens impulsionadores da inflação no país, o motivo da medida foi aumentar a sua oferta no mercado interno e forçar a queda do preço A medida gerou forte reação na cadeia de carne argentina.
Outra justificativa foi de que diante da febre aftosa no Brasil, e o medo da febre aviária na Europa, a demanda mundial pela carne argentina aumentou. No mercado interno a oferta caiu, os preços subiram e provocaram inflação.
Em 1º de junho de 2006, o governo argentino permitiu a remessa para o exterior de até 40% da quantidade de carne exportada no segundo semestre de 2005, para retomar suas vendas externas. O resultado foi uma queda significativa nas exportações do ano. Os produtores argentinos reduziram seus investimentos em US$ 300 milhões em 2006 - queda de 33% em relação ao ano anterior - de acordo com a Sociedade Rural Argentina.
Em abril de 2007, as exportações argentinas de carne bovina voltaram a ser proibidas para conter os preços internos. O produto tinha sido liberado no final do ano passado, mas com a pressão dos preços sobre a inflação, o governo decidiu colocar barreiras novamente.
Depois, em junho de 2007, o governo estendeu a cota exportável fixada no equivalente a 50% da média mensal do volume exportado em 2005. Isso significa que o país pode exportar por ano em torno de 500 mil toneladas de carne bovina. No acumulado do ano, as exportações tiveram um novo recuo.
Neste ano, em primeiro de abril, o governo suspendeu os embarques, para, em 18 de abril, liberar as exportações de carne bovina e aumentar a cota permitida de 500 mil para 550 mil toneladas anuais. Em troca, os dirigentes das entidades rurais tiveram de assinar um acordo que garante o abastecimento doméstico com preços acessíveis.
As intervenções governamentais não se limitam às exportações. Os preços controlados envolvem uma lista dos 13 cortes mais populares. O setor produtivo considera as intervenções oficiais prejudiciais à produção, e sem conseguir o efeito esperado. A informalidade no setor de carne bovina impede a quantificação exata da oferta e o controle da cadeia de produção e comercialização. De 2005 a 2007, 3 milhões de hectares de pastagens foram ocupados pela sojicultura
Com 51,3 milhões de cabeças de gado em 2007, a Argentina possui o quarto maior rebanho no mundo para fins comerciais. Atualmente, é a quarta maior exportadora de carne bovina no mundo, com uma participação de 7% no total das exportações, atrás do Brasil, da Austrália e dos EUA.
Dados da Oficina Nacional de Controle Comercial Agropecuário (Oncca, na sigla em espanhol), que controla o setor agropecuário no país, mostram que o abate atingiu quase 15 milhões de cabeças em 2007, contra 13 milhões em 2006. As exportações do produto chegaram a 539 mil toneladas em 2007, sendo 4,6% inferior às de 2006. Contudo, a receita foi de US$ 1,28 milhão, 6,8% maior que a obtida em 2006, devido ao aumento de preços nos cortes resfriados.
Houve um recuo de 22% das exportações do período 2006 a 2007, comparadas às do biênio 2004 e 2005, por causa das intervenções oficiais.
A exportação média da Argentina entre 2004 e 2005 foi de 700 mil toneladas. A quantidade é quase o dobro da média exportada desde 1991 até 2003. Na média, no biênio 2006/2007 a exportação foi de 552 mil toneladas, bem acima da do período compreendido entre 1991 e 2003.
Na década de noventa, a Argentina embarcava, em media, 13,4% de sua produção. Essa participação aumentou entre 2004 e 2005 para 22,75%. Como, posteriormente, vieram as restrições, houve redução para 18%.
Desde o final dos noventa, o abate de fêmeas avançou de 40% para 50% do total. Esse aumento é apontado como resultado do desestímulo ao investimento pela falta de uma política governamental clara para o setor. Um abate entre 20% e 25% de vacas é considerado reposição, descarte das matrizes que não servem, para renovação do plantel com novas crias nascidas ou compradas de terceiros.
Austrália – Anos de seca
A Austrália, segundo maior exportador de carne bovina do mundo, exporta mais de 65% de toda a sua produção. A criação padece por causa da seca que assola várias regiões do país, com mais ou menos intensidade, desde 2002. O número de cabeças de gado, entre animais de corte e de leite, não mostra evolução.
O confinamento acontece o ano todo. São, em média, 2,4 giros sobre a capacidade instalada de 1,1 milhões de cabeças. Cerca de um terço do abate sai de confinamentos.
Neste ano, em relação a 2007, as exportações deverão cair, em milhões de toneladas de equivalente carcaça, de 1.410 para 1.270.  O custo de produção elevado e a valorização da moeda tiram competitividade das exportações. A maior parte das vendas externas de carne bovina da Austrália tem como destino o Japão. Outros clientes relevantes são os EUA, a Coréia do Sul e Taiwan.  A estratégia é diversificar e encontrar novos mercados emergentes, como a Indonésia e a China.
Os exportadores de carne bovina da Austrália têm recebido um aumento de pedidos de vários países, em meio a problemas e ofertas menores na Argentina, no Brasil e Uruguai, Os pedidos estão vindo de países europeus, Oriente Médio, norte da África, Sudeste Asiático e Rússia.
Um trabalho agressivo de venda teve como foco o mercado da Rússia. Com a recente crise de crédito e a queda no dólar australiano, os importadores desistem de renegociar contratos feitos com a moeda com valor mais alto para produtos em trânsito.
Além disso, após as altas importações da América do Sul e a desvalorização da moeda russa (rublo) ante o dólar dos EUA, os produtos acumulam-se, congestionando os portos russos. Os importadores encontram dificuldades para obter crédito e cumprir os contratos existentes ou comprar novos produtos.
Estados Unidos – Recuperar as exportações
Após a constatação de um único caso de vaca louca, no final de 2003, no estado de Washington, mais de 70 países suspenderam suas importações de carne dos EUA, inclusive seus dois grandes mercados: a Austrália e o Japão.
No final de 2005, o governo japonês amenizou o embargo. Antes do embargo, o Japão era o principal importador dos EUA, com uma compra anual de US$ 1,4 bilhão.
O confinamento ocorre durante todo o ano. A média de giro sobre a capacidade instalada de 12 milhões de cabeças é de 2,5. Mais de 65% do abate nacional saem dos 2.165 confinamentos, todos eles acima de 1.000 cabeças.
As exportações ao Japão e à Coréia serão reconstruídas nos próximos dez anos, mas não atingirão os níveis pré-EEB. Já as importações deverão aumentar moderadamente, especialmente da Austrália e Nova Zelândia.
Nos EUA, neste ano, há uma redução nos confinamentos por causa do aumento dos custos de produção, ante a valorização do milho, que é usado também na produção de etanol. Os nortes-americanos buscam acesso a importantes mercados da Ásia. Sem proibições, as exportações para Coréia do Sul envolvem aspectos meramente comerciais. Já as vendas para o Japão estão prejudicadas pelas restrições na idade do animal, de 20 meses ou menos, e pelo processo de verificação da idade. Tem havido um grande sucesso no Hemisfério Ocidental. As exportações de carne bovina dos EUA ao México e ao Caribe ultrapassam os níveis de 2003.
As exportações para o Sudeste Asiático aumentam. Os maiores envios são para o Vietnã e Taiwan, embora um massivo volume de carne bovina dos EUA tenha sido re-exportado do Vietnã ao sul da China. As exportações na região concorrem com o mercado de carne com osso da Coréia do Sul. Na Malásia, há uma recuperação no comércio, com a expansão dos setores de foodservice.
Apesar de embargos parciais por importantes compradores, relacionados a doenças, como União Européia (UE) e Rússia, as exportações de carne bovina continuam e são parcialmente sustentadas por novas oportunidades no Oriente Médio (Egito, Irã e Arábia Saudita). As vendas para esses mercados não-tradicionais têm compensado um declínio nas vendas à UE e o acesso limitado ao mercado russo.
União Européia – Perda de competitividade
Na União Européia, a produção de carne bovina, em milhões de toneladas de equivalente carcaça, declinou de 8,2 para 7,0 entre 2003 e 2008. Com o consumo e exportação praticamente estáveis, respectivamente, de 8,5 milhões de toneladas e 175 mil toneladas, as importações necessárias para complementar o abastecimento interno são estimadas em 750 mil toneladas.
Em 2007, o Brasil foi o maior fornecedor para a União Européia, respondendo por 70% das compras externas do bloco.
Embora coloque obstáculos à entrada da carne bovina brasileira, como quotas e tarifas ad valorem e específica (12,8% + 3.040 euros por tonelada) de importação, que correspondem a mais de 150% sobre o preço final do produto exportado, o Brasil tem conseguindo aumentar suas entregas para o bloco.
O déficit de abastecimento de carne bovina na UE é crônico pela perda de eficiência econômica de seus sistemas de produção. O preço recebido pelo criador, com a inclusão dos subsídios pagos pelo governo, não cobre o custo efetivo de produção (gastos mensais de produção, sem considerar a depreciação dos investimentos fixos).
Até 2014, a UE prevê queda na produção (7,6 milhões de toneladas) e nas exportações (65 mil toneladas), mas um aumento no consumo per capita de carne de 84,5 quilos para 87,2 quilos. A dependência em relação à carne sul-americana aumentará.