ARTIGOS

27/01/2009

Especial Globalização da Pecuária - Parte IV



Impacto da crise

Alcides de Moura Torres Junior*
Fabiano Tito Rosa**
Maria Gabriela O Tonini***

Na pecuária brasileira, os efeitos diretos da crise financeira mundial envolvem principalmente as exportações, a desaceleração dos investimentos e a falta de capital de giro para algumas indústrias do setor por conta da falta de crédito.
Para começar, os contêineres de carne bovina parados nos portos da Rússia, à espera por novas negociações: sem crédito, os importadores querem redução de preço e prazos de pagamento mais largos.
Depois, notícias dos importadores de carne bovina brasileira: europeus renegociarem, por exemplo, a tonelada do contrafilé brasileiro de US$11,0 mil para US$9,0 mil.
Ao mesmo tempo, no mercado interno, a oferta de animais para o abate continuava pequena, com os preços do boi gordo em alta. É um momento de ajuste produtivo, depois de anos de preços baixos e diminuição do rebanho, com significativo investimento na capacidade industrial do País. Se a produção diminuiu, a demanda por bovinos aumentou.
Com preços firmes e dificuldade na compra do boi gordo, mais os problemas com os compradores internacionais, os frigoríficos literalmente “pisaram no freio”, deram férias coletivas para diminuir a pressão sobre a necessidade de compra dos animais, aliviar os estoques, e aguardar por novidades, para então definir novas estratégias.
Efeitos no abate
O abate de bovinos em 2008 deve ser menor que 7,0% se comparado ao de 2007. No primeiro semestre, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) houve redução de 5,6% no abate nacional de bovinos, comparando-se ao mesmo período de 2007. Em função das recentes paralisações de frigoríficos, a queda pode ser mais significativa até o final do ano.
Os frigoríficos trabalham com capacidade ociosa ao longo de 2008, e, nos últimos dois meses, os abates caíram ainda mais.
Para exemplificar, se a necessidade de compra de bovinos era de 71,0 mil cabeças por dia, hoje a demanda está em 48,5 mil cabeças por dia. O encolhimento da demanda tem possibilitado estabilidade e até queda de preço da arroba.
Até agora, com oferta pequena, concentrada em animais dos próprios frigoríficos, além do gado negociado a termo, os compradores conseguiram conter a alta dos preços. A pressão de alta só não é maior por causa da saída (momentânea ou não) de alguns frigoríficos do mercado.
Outro motivo para os frigoríficos diminuírem o ritmo de abates foi a queda da margem entre o pagamento pelo boi gordo e o recebimento pela carne e subprodutos.
Assim, cresceu a relação de troca entre o preço do boi gordo e a cotação do Equivalente Desossa (indicador da receita obtida pelo frigorífico com a venda de carne sem osso, couro, sebo e todos os miúdos, derivados e subprodutos bovinos no mercado interno).
O pior momento aconteceu entre meados de junho e de setembro, quando a diferença esteve, na média, abaixo de 12,5%. Para 2009, pouca mudança deve ocorrer em termos de oferta. O rebanho está em reestruturação e o mercado ainda deve trabalhar ajustado, mantendo as cotações próximas dos níveis atuais.
Perspectivas de consumo e venda de carne
A crise pode afetar a evolução do consumo de carne. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima um crescimento de 3% na economia mundial, queda de 0,9 % em relação à última projeção, realizada em julho. Um crescimento mais moderado em relação aos últimos dois ou três anos.
Essa conjuntura menos favorável ao consumo, junto com as restrições de crédito, deve levar os compradores a renegociar preços e prazos, o que, de fato, já está ocorrendo.
Se a demanda cresce menos, a Europa, com produção em queda, dificulta a importação da carne bovina brasileira. A Austrália produz menos, em função da seca e do aumento dos custos. A questão dos custos altos também afeta a produção norte-americana. A Argentina pratica auto-embargo. Aqui, atravessamos um período de forte ajuste produtivo.
Com isso, não é possível descartar a possibilidade de haver espaço para o aumento das vendas externas. Existe a expectativa de retomada das exportações brasileiras de carne bovina para o Chile, mercado fechado desde o final de 2005, em função dos casos de febre aftosa em Mato Grosso do Sul e no Paraná.
A diferença entre o volume disponível para exportação entre o Brasil e a Austrália (segundo maior exportador mundial), equivale às vendas externas da Índia, a terceira no ranking de exportadores de carne bovina.
Em qualidade, tanto de processos como de produto, o Brasil é bastante competitivo, pois:
• Possui a maior zona livre (com vacinação) de febre aftosa do planeta;
• Investe pesado em tecnologia e bem estar animal;
Conta com rebanho homogêneo, com predominância da raça nelore, o que facilita a padronização das peças.
Com capacidade estática anual de abate estimada em 70 milhões, o Brasil poderia produzir 15 milhões de toneladas equivalente carcaça de carne, 15% a mais que os Estados Unidos, o maior produtor mundial. Sem gado para tanto e problemas de crédito, para que investir?
Por fim, as crises vêm e vão, mas as perspectivas são positivas para o setor. As ações realizadas agora por produtores, frigoríficos, indústrias de insumos e governo determinarão quanto ela afetará os resultados, e de que forma o País sairá dela.
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* Engenheiro agrônomo.
** Zootecnista.
*** Médica veterinária