ARTIGOS

02/05/2005

Manejo nutricional de vacas de corte



Nossa pecuária de corte é, em sua maior parte, praticada de modo extensivo e se caracteriza por produtividade de média a baixa. Esforços têm sido feitos no sentido de melhorar os índices produtivos. Entre as maiores preocupações do sistema de produção de carne, estão as questões que envolvem a fertilidade das vacas e o peso ao desmame dos bezerros. Aparentemente esses dois itens são antagônicos para as condições de animais em pastagens, pois normalmente as áreas de pior fertilidade são aquelas destinadas às pastagens e ainda, dentro dessas, as mais críticas são normalmente ocupadas pelas vacas.

É bastante conhecida a importância da condição corporal das fêmeas na manifestação de cio e na condição de produção de leite para os bezerros. Muito se tem conseguido através do ganho genético com programas de seleção de animais sexualmente precoces. Porém, um animal geneticamente superior em condições inadequadas de alimentação não manifestará suas qualidades.

Vacas de corte que produzem mais leite são aquelas que normalmente apresentam piores condições corporais. Isso ocorre devido à grande eficiência do animal em converter energia corporal em leite, o que frequentemente, condiciona um bezerro bem desmamado e um grande intervalo entre partos.

Se analisarmos sob o ponto de vista nutricional uma vaca de cerca de 13@ de peso vivo, em pastagem de brachiária em solos de cerrado com um bezerro de 5 meses (aproximadamente 150 kg de peso vivo ao pé da vaca), consome cerca de 60% do que ingere em termos de energia diária, para produzir menos de 30% da demanda energética do bezerro.

Esse problema é agravado de modo bastante evidente nas fêmeas primíparas, aquelas que estão amamentando seu primeiro bezerro e indo para a segunda cobertura. Normalmente são animais ainda em fase de crescimento e com um peso vivo baixo, o que resulta em baixo nível de ingestão. Assim, temos um animal que terá que ingerir nutrientes para terminar seu crescimento, amamentar, recuperar sua condição corporal e ainda, entrar novamente em cio.

Gráfico I: Evolução do Requerimento Energético, Peso Vivo e Ingestão de
Energia de uma primípara em pastejo, seca aos sete meses.




O gráfico acima ilustra, em percentual, a necessidade energética acima da mantença, que deverá ser atendida para que o animal recupere seu peso vivo original no término do período de amamentação, que no caso foi considerado como sendo de sete meses. No exemplo, uma vaca de primeira cria por volta do terceiro mês de lactação, deverá ingerir nutrientes em cerca de 125% a mais que sua manutenção para conseguir produzir leite e terá um peso vivo de cerca de 90% daquele observado antes do parto, já para o sexto mês a necessidade de ingestão é de cerca de 74% a mais que sua manutenção para que o animal recupere seu peso vivo próximo a 98% daquele original.

Na prática, dificilmente as pastagens oferecem quantidade e qualidade para esses níveis de ingestão, como demonstrado pela linha que corresponde à ingestão de energia (gráfico 1), ou seja, ela só consegue ingerir 100% de suas necessidades energéticas a partir do sétimo mês de lactação, quando a quantidade de leite produzida já é bem menor. Por isso, o animal acaba aumentando o intervalo entre partos para poder compensar essa falta de alimentação adequada.


Gráfico 2: Evolução do Requerimento Energético, Peso Vivo e Ingestão de
Energia de uma primípara em pastejo, seca aos quatro meses.



Técnicas de manejo e uso das pastagens podem minimizar o problema, adequando o pastejo às melhores condições do capim. A alternativa de suplementação dessas fêmeas, através do uso de concentrados como fonte energética, pode inviabilizar o processo, inclusive porque foge do propósito de utilização da pastagem como principal fonte de energia para os bovinos nos trópicos. Há aí a possibilidade de utilização da correção protéica da dieta como fator de estímulo a uma maior ingestão de forragem, porém, essa técnica esbarra em limites bastante definidos e estudados.

Considerando-se o fato de que a partir do quarto mês de lactação, o custo da produção de leite para a vaca representa muito mais do que o benefício deste para o bezerro, podemos simular uma situação para esta fêmea, sem o bezerro ao seu pé, no final do quarto mês.

Neste caso a desmama possibilita uma melhor recuperação da mãe. A situação para o terceiro mês é idêntica a anterior, porém ao sexto mês a fêmea consegue ingerir cerca de 123% de sua necessidade energética, havendo portanto condições de aceleração do processo de recuperação da condição corporal.

Isso fica mais fácil nas situações onde a estação de monta permite o desmame no pico das águas, quando as condições da pastagem são bastante favoráveis. Cuidados especiais devem ser dispensados aos bezerros, que podem incluir suplementação alimentar, mesmo em boas pastagens. Porém, regra geral, a relação custo/benefício da substituição do leite por um suplemento alimentar para os bezerros é muito boa, além de ser muito mais econômico tratar o bezerro que corrigir as deficiências nutricionais das vacas.

É certo que os valores apresentados podem sofrer muitas alterações, dada a grande variabilidade de ambientes e condições dos rebanhos. O importante é estabelecer uma filosofia de trabalho, baseada nos princípios demonstrados. Um erro comum observado no campo é a implantação de sistemas de alimentação de bezerros, mantendo-os ao pé da vaca, com o intuito de melhorar a condição corporal destas. Certamente o animal não substituirá o leite pelo suplemento alimentar, e sim o pasto (se houver efeito de substituição) ou simplesmente agregará o suplemento à sua dieta, melhorando seu desempenho e piorando ainda mais a condição corporal da vaca que o amamenta.


Rogério Magnoli Costa e Guilherme Benko de Siqueira, zootecnistas da Êxito Rural Consultoria em Pecuária

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