ARTIGOS

20/07/2006

Proteína Animal em Rações



São Paulo, 07 - O surgimento recente do mal da vaca louca (encefalopatia espongiforme bovina) no Canadá, país que desde 1997 proibiu o uso de ração potencialmente perigosa para alimentação dos rebanhos, resgatou a discussão sobre a qualidade da carne consumida pelo ser humano. No mundo todo, o uso de proteína animal para os ruminantes (bovinos, ovinos e caprinos) é vetado e provavelmente a vaca contaminada nasceu antes da medida, podendo ter adquirido a doença naquela época.
Contudo, se os bovinos ficaram no centro do debate por comerem restos de seus "parentes", não é porque a prerrogativa se restringe à espécie. Há muitos anos, aves e suínos comem ração que inclui a chamada farinha de carne, espécie de pó feito com subprodutos do animal não aproveitados para o consumo. São principalmente ossos, tecido muscular, gordura e eventualmente vísceras e sangue. O alimento para animais domésticos (cães e gatos) também incluem subprodutos do processamento de bovinos, suínos e aves.
São várias as justificativas para o uso de restos de animais na formulação da ração. A principal é que se trata de uma fonte rica de proteína, em quantidade muito superior à oferecida pela alimentação natural. Uma nutrição exclusivamente vegetariana necessitaria de complementos sintéticos de proteína em razão da atual escala da produção comercial de carnes.
Outro motivo é a economia para as empresas. As grandes indústrias como Perdigão, Sadia e Seara são ao mesmo tempo grandes demandadoras de ração e fornecedoras de subprodutos. Conseguem assim dar um destino aos resíduos e economizar com o insumo, já que dispõem de uma das matérias-primas. Trata-se de um processo que ocorre em circuito fechado.
A terceira justificativa é o grave problema de saúde pública que a destinação dos resíduos poderia gerar caso não houvesse o aproveitamento. Poderiam ser enterrados, mas há o risco de contaminação do lençol freático. Os processos atuais para eliminá-los são caros e complexos. Os restos de bovinos de açougues e supermercados por exemplo são encaminhados a usinas denominadas engraxarias, que vendem depois os produtos para indústrias de ração. O que não tem esta destinação - uma pequena parcela -- é incinerado, usado para geração de energia ou adubo (compostagem).
De qualquer forma, a idéia de canibalismo ainda choca, tanto que na Europa existem nichos de mercado que exigem a procedência exclusivamente vegetal da carne. Mas há algumas informações que podem servir como atenuantes desta percepção. Em primeiro lugar, a proteína animal é um ingrediente que entra em quantidades pequenas na formulação. De acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), dos 39 milhões de toneladas de ração produzidas por ano apenas para suinocultura, avicultura e postura, por exemplo, a farinha de carne responde por 1,5 milhão de tonelada. A gordura de origem animal colabora com mais 1 milhão de tonelada. O balanceamento é controlado pela Secretaria de Defesa Animal do Ministério da Agricultura.
O farelo de milho e de soja é o principal ingrediente, representando aproximadamente 70% da composição. O restante são vitaminas, aminoácidos e aditivos sintéticos, obtidos por meio de fermentação de substâncias vegetais, além de microminerais (extraídos de minerais da natureza) e lácteos (soro do leite). Outro ponto que os fabricantes de ração gostam de destacar é que são usados unicamente restos de animais sadios e não carcaças rejeitadas.
Para os que ainda consideram o processo muito antinatural, há também a explicação que, na vida em grupo dos animais, há experiências de agressões que lembram o canibalismo. Os porcos às vezes mordem a orelha de seus companheiros e acabam lambendo o sangue, havendo, portanto, alguma troca de matéria orgânica. Entre as aves também podem ocorrer circunstâncias de reações agressivas, enfatizou a coordenadora técnica e de qualidade do Sindirações, Flávia Castro.
Para os apreciadores de carne bovina, a notícia é melhor pois apenas 11% do rebanho brasileiro é alimentado com ração, ainda assim de origem vegetal, complementarmente à pastagem, ao passo que a maior parte da carne e derivados de porcos e aves consumida pela população é produzida comercialmente, ou seja, com produto que leva proteína animal. Contudo estas espécies até agora não apresentaram doenças motivadas pela alimentação. As diversas gripes aviárias (como o H5N1 ou a Newcastle) são causadas por vírus e consideradas enfermidades exclusivamente veterinárias.
Em razão das características dos produtores brasileiros de bovinos (muitas pequenas propriedades) é de se esperar que nem todos sigam as determinações e acabem burlando as normas. Existem pequenas indústrias de rações que fazem farinha de carne nas fazendas para consumo próprio e não são alvo da fiscalização do ministério. Mas, atualmente, a necessidade de adequação ao mercado e a cultura da denúncia restringem esta prática. Principalmente por causa do risco potencial de prejuízo no caso do surgimento de doenças. "O mercado se auto-regula", argumentou Flávia.
A indústria de rações brasileira faturou US$ 9,3 bilhões em 2005, de acordo com dados do Sindirações, entidade que representa cerca de 80% do mercado e reúne 160 empresas. Calcula-se que existam outras 2.000 pequenas fábricas produzindo quantidades mínimas. O Brasil é o terceiro maior produtor mundial, atrás dos EUA e China, com 49 milhões de toneladas. A avicultura absorve 56,7% da produção; a suinocultura, 26,2%; bovinocultura, 11,3%; pet shop, 3,3%; e o restante fica distribuído por outros segmentos.
Fonte: Agência Estado (Marcia Furlan) – 07/07/06